sábado, 28 de abril de 2007

Uma Páscoa Multireligiosa

Depois de pouco mais de um ano, estive dentro de uma igreja de novo no último domingo de Páscoa. Assisti à missa de sétimo dia da minha avó materna. De família tipicamente goiana desde pequeno fui criado sob os ritos da Igreja Católica. Quem me conhece sabe que há pouco mais de cinco anos decidi que não iria mais freqüentar nenhum tipo de instituição religiosa, por convicção de que este tipo de fé já não mais me pertencia.

Ainda bem que quando mais o tempo passa mais maduros e sábios ficamos. Se estivesse na mesma situação há cinco anos tudo seria diferente. Talvez teria uma daquelas célebres reações de garoto-sabe-tudo e menosprezaria o ambiente religioso, julgando tudo um engodo dos bispos. Verdade ou não, isso já não me importa mais.

Para ser franco, o fato dos católicos celebrarem sua religiosidade com a cara de quem está indo para forca, com grande pesar nos ombros, até hoje me incomoda muito. A maioria nem presta a atenção no que está fazendo. Assim foram ensinados. Paciência!

Há tempos estou no que gosto de chamar de estado de suspensão, do qual talvez nunca saia. Trata-se daquele espírito de quem não crê e nem descrê. Já disseram vários cientistas que até mesmo os ateus têm sua religião – alguns encaram a ciência como a sua. Ou seja, todo mundo que vive crê em algo, mesmo que seja somente na “verdade” de átomos e moléculas. Posso até me encaixar em um rótulo, mas odeio ser chamado de ateu ou agnótisco.

O que passei a achar, ironicamente, é que bem ou mal a Igreja talvez tenha sido e, na maioria esmagadora dos casos continua sendo, muito pertinente à humanidade. Tem todos os defeitos do mundo possíveis em uma instituição fundada e mantida por homens. Mas como seria uma mundo sem igrejas? As pessoas seriam capazes de julgarem, a princípio, por si próprias, o que é bom ou não, se não tivessem que ter medo do Papai do Céu? Sinceramente, minha fé na "bondade inata" da humanidade nunca foi forte...

O alento é que, com todas as suas falhas, o Universo que criou o homem teve sabedoria de implantar nele crenças que, mesmo com graves efeitos colaterais como guerras religiosas fudamentalistas, conseguem regular a moral e levar muita gente por aquilo que se chama de “caminho do bem”.

Se eu criaria meus filhos como meus irmãos e eu fomos criados dentro da igreja? Sim, se isso fosse muito importante para a mãe deles. Caso contrário, não, mesmo sabendo que me norteio em princípios de bondade e ética, por ter sido criado dentro de igreja – obviamente por mérito dos meus pais e não dos senhores de batina. Quero mostrar a eles que se pode acreditar no que sua necessidade permite ou a intuição manda. E que esta é a beleza de um mundo de muitas religiões, sejam elas no sentido bíblico ou não.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Um Pai

Depois de um tempo longe, estou de volta. Fiz umas pequenas mudanças. A vida é a assim a gente tem de mudar para encontrar novas forças. Aproveitando que estamos a dois dias da Páscoa, publico uma adaptação da narrativa que entreguei como trabalho final da especialização. O tema é pertinente nesta data. Quem me conhece bem sabe que tenho visões bem diferentes das usuais sobre religiosidade. E tenho uma peculiar. Boa leitura.

UM PAI

Aos oito anos de idade, a pequena Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, estava sozinha no quarto semi-escuro e teve uma experiência que a marcou bastante. Em seu quarto uma figura negra aparece.

– Quem é você? – questiona a menina, sem resposta.

Sempre teve muitos pesadelos à noite. O sono é muito agitado. Nesta noite de 1960 em seu quarto, ela grita muito. Os pais se levantam e vão até lá para saber o que estava acontecendo.

Bernadete conta que a figura lhe falou que não adiantava chamar ninguém, porque continuaria a aparecer sempre que estivesse sozinha.

Em uma manhã ensolarada de janeiro de 2007, ganhei a oportunidade de contar para alguns milhares de leitores a história de Bernadete, de acordo com suas palavras.

A manhã já é alta. No Adress Hotel de Goiânia, nenhuma exaltação entre os hóspedes. Nas ruas da cidade um forte Sol ilumina os verdes e floridos canteiros da avenidas da cidade.

Toda de negro, ela em nada lembra a pequena Bernadete. Não fosse os 54 anos e o rosto conhecido, qualquer um diria que trata-se de mais uma emo – representante da tribo urbana jovem que renovou o estilo punk de ser. Camiseta vazada como uma meia arrastão por baixo de uma regata, calça colada e mini-saia por cima, botas plataforma, ela se destaca dos demais pela cor do cabelo. Violeta, tinta recém retocada.

Tira os óculos escuros. Cumprimenta com um aconchegante abraço, desculpa-se pelo atraso e pede mais um tempo.

– Essa é quem estou pensando? – pergunta uma senhora sentada ao sofá de espera.
– É sim – respondo presumindo a conclusão.

Baby Consuelo. Baby, que já não é mais Consuelo, mas do Brasil. Espevitada e gentil. O sorriso continua o mesmo de quando eu era criança e ela cantava mostrando-os e dizendo que tudo era azul, inclusive Adão e Eva no paraíso.

Bernadete, ou melhor Baby, tornou-se há pouco mais de sete anos evangélica. Virou “popstora”, como gosta de dizer, da igreja Ministério do Espírito Santo de Deus em Nome de Jesus, no Rio de Janeiro, fundada por ela em 2003. Desde então não fala mais palavrão.

– Quando Ele falou comigo fiquei assustada e pensei: “os outros evangélicos vão pirar comigo”. Existe um lado evangélico muito radical que não abre para nada. Do outro lado as portas são abertas para todos. É importante que todos conheçam a mensagem de Jesus. Não é só ser careta, porque o lado punk e heavy também existem na igreja.

Em 1999, ano da conversão, tinha 46 anos. Estava em casa, no quarto. De repente sente que algo muito forte a percorre por todo corpo. É como se uma voz a penetrasse em um lugar muito especial. Um timbre inconfundível. Foi o primeiro contato verdadeiro com Deus. O chamado.

– Você é cristão? – pergunta-me.
– Sou sim.
– Glóóória ao senhoooor. Você sabe que no céu não entra bunda mole, não, hein. Só casca grossa... Ha ha ha ha.

Baby é esforçada diante da missão. Desde que optou por entrar para o rebanho do Senhor não teve mais nenhum namorado. Pelo menos nenhum que “estivesse na mesma onda”. Abstinência total de sexo. Nem sequer beijo na boca. Amigos se afastaram, com medo que se transformasse em uma chata pregadora.

– Como você vê, durante esse tempo todo, isso não está acontecendo – garante.

Nos últimos anos, esteve em baixa no mercado da música, por adotar somente o gospel. Mas o dom divino de cantar agora será usado para arrebanhar novos fiéis. Duas gravadoras de porte nacional estão analisando a proposta de um novo projeto. Um CD duplo, metáfora de suas duas facetas perante o público. De um lado do encarte, um CD com a Baby dos velhos tempos, como nas canções Menino do Rio, Todo Dia Era Dia de Índio, Sem Pecado e Sem Juízo. Do outro lado, músicas de adoração e louvor.

É que Deus lhe disse que era uma vitrine. Que todos estão na grande expectativa, com os olhos voltados a ela para saber a que horas vai ficar fanática de vez. Que uma das coisas positivas em sua fama é justamente atrair as pessoas que querem saber ser realmente é bom ou não ser cristão.

Para conquistar novas ovelhas para o rebanho do Senhor, vale os artifícios da beleza. A pele é muito bem cuidada, vistosa e hidratada. Gosta de se enfeitar. Um dia pode acordar “muito punk”, em outro pode estar de roupa comprida. Faz questão de dizer que não faz nenhum compromisso com a moda. Mas o violeta da tinta do cabelo está no auge, assim como suas roupas com estampas de oncinha.

A oncinha, aliás, faz parte da decoração da recepção, nas almofadas e cortinas, de sua igreja no Rio de Janeiro. Próteses de silicone nos seios, pele em excesso acima dos olhos tirada, agora quer perder cinco quilos e ganhar músculos para ficar saradona.

Enquanto continuamos nosso passeio pelo hotel, seu celular toca. Baby escuta atentamente e o semblante fecha; o sorriso apaga-se por alguns instantes. Pede-me cinco minutos. Tem de ajudar a mãe que está no Rio de Janeiro e precisou de um atendimento médico.

Quando fico sozinho penso sobre como Baby às vezes parece uma criança assustada em busca de apoio. Uma criança que teme desgarrar-se das mãos paternas e perder-se no meio de uma multidão.

Passei boa parte da minha vida querendo entender porque os seres humanos são tão necessitados de uma figura que as protejam de tudo e de todos, uma figura paterna, poderia dizer. Algo que as dê um norte, explique por que estão aqui e as guie.

Em Baby encontro mais perguntas que respostas.

– Sabe o que espero do amanhã? – atiça-me ela, invertendo as posições, pouco depois de voltar.
– O quê? – devolvo a pergunta.
– Sempre o melhor, porque consagrei o futuro a Ele. Tenho certeza de que se continuo com Ele o amanhã é certo. Renovo como Ele a cada manhã e não há nada mais delicioso. É um prazer que não tem explicação. Não há nenhum tipo de droga que possa trazer a onda que o Espírito Santo traz. Nem maconha, nem vinho, nem LSD. Nada é igual. – Pausa breve. Silêncio – Olha só, até me arrepiei toda.

* * *

Chorando sozinha em seu quarto a pequena Bernadete novamente encontra-se com a figura negra.

– Eu não disse que ninguém iria lhe ajudar? – diz-lhe a voz taciturna.

A menina sente-se em um abismo. Sofre uma das maiores dores de sua vida. Lembra-se das histórias que a avó lhe contava sobre a vida de Jesus, um homem que ressuscitava os mortos, operava milagres, ensinava que cobiça maliciosa de coisas materiais não era legal e que as pessoas deveriam amar-se uma às outras.

Lembra que lhe contou que os homens mataram esse cara que tinha o poder de ressuscitar os mortos. “Por quê?” – pergunta-se internamente. Vê que está em um mundo em que se matam pessoas santas, sem justificativa. Um grito ecoa dentro dela. A voz taciturna a manda para a janela e cair.

Quando chega bem próximo do abismo, que dá para uma enorme queda, algo segura Bernadete. Uma outra voz fala:

– Cuidado.

“É a voz de Deus”, pensa. No mesmo instante, sai de perto da janela.

terça-feira, 31 de outubro de 2006

Invisibilidade Pública

Seguinte: como estou sem tempo para produzir, enquanto não estiver escrevendo por aqui vou publicar textos que acho interessante e que tem a ver com Jornalismo Literário. Esta matéria que segue não foi escrita em JL, mas tem tudo a ver com uma das premissas dele, a imersão. Recebi por e-mail. Ela foi retirada do site da Universidade de São Paulo, a USP. Olhem que coisa mais óbvia, mas que nunca percebemos. Muito interessante.



Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da invisibilidade pública"

"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"


Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.

>> O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são "seres invisíveis, sem nome".

Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da "invisibilidade pública", ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.

Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida: "Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência", explica o pesquisador.

O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. "Professores que antes me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão", diz.

Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humilhações diárias, segundo o psicólogo, [os invisíveis] são acolhedores com quem os enxerga.. E encontram no silêncio a defesa contra quem os ignora.

Como é que você teve essa idéia?
Fernando Braga da Costa - Meu orientador desde a graduação, o professor José Moura Gonçalves Filho, sugeriu aos alunos, como uma das provas de avaliação, que a gente se engajasse numa tarefa proletária. Uma forma de atividade profissional que não exigisse qualificação técnica nem acadêmica. Então, basicamente, profissões das classes pobres.

Com que objetivo?
A função do meu mestrado era compreender e analisar a condição de trabalho deles (os garis), e a maneira como eles estão inseridos na cena pública. Ou seja, estudar a condição moral e psicológica a qual eles estão sujeitos dentro da sociedade. Outro nível de investigação, que vai ser priorizado agora no doutorado, é analisar e verificar as barreiras e as aberturas que se operam no encontro do psicólogo social com os garis. Que barreiras são essas, que aberturas são essas, e como se dá a aproximação?

Quando você começou a trabalhar, os garis notaram que se tratava de um estudante fazendo pesquisa?
Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal. Chegando lá eu tinha a expectativa de me apresentar como novo funcionário, recém-contratado pela USP pra varrer rua com eles. Mas, os garis sacaram logo, entretanto nada me disseram. Existe uma coisa típica dos garis: são pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos em geral. Eu sou branquelo, mas isso talvez não seja o diferencial, porque muitos garis ali são brancos também. Você tem uma série de fatores que são ainda mais determinantes, como a maneira de falarmos, o modo de a gente olhar ou de posicionar o nosso corpo, a maneira como gesticulamos. Os garis conseguem definir essa diferenças com algumas frases que são simplesmente formidáveis.

Dê um exemplo?
Nós estávamos varrendo e, em determinado momento, comecei a papear com um dos garis. De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão. O sujeito passou pela gente e não nos cumprimentou, o que é comum nessas situações. O gari, sem se referir claramente ao homem que acabara de passar, virou-se pra mim e começou a falar: "É Fernando, quando o sujeito vem andando você logo sabe se o cabra é do dinheiro ou não. Porque peão anda macio, quase não faz barulho. Já o pessoal da outra classe você só ouve o toc-toc dos passos. E quando a gente está esperando o trem logo percebe também: o peão fica todo encolhidinho olhando pra baixo. Eles não. Ficam com olhar só por cima de toda a peãozada, segurando a pastinha na mão."

Quanto tempo depois eles falaram sobre essa percepção de que você era diferente?
Isso não precisou nem ser comentado, porque os fatos no primeiro dia de trabalho já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não era um gari. Fui tratado de uma forma completamente diferente. Os garis são carregados na caçamba da caminhonete junto com as ferramentas. É como se eles fossem ferramentas também. Eles não deixaram eu viajar na caçamba, quiseram que eu fosse na cabine. Tive de insistir muito para poder viajar com eles na caçamba. Chegando no lugar de trabalho, continuaram me tratando diferente. As vassouras eram todas muito velhas. A única vassoura nova já estava reservada para mim. Não me deixaram usar a pá e a enxada, porque era um serviço mais pesado. Eles fizeram questão de que eu trabalhasse só com a vassoura e, mesmo assim, num lugar mais limpinho, e isso tudo foi dando a dimensão de que os garis sabiam que eu não tinha a mesma origem socioeconômica deles.

Quer dizer que eles se diminuíram com a sua presença?
Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger.

Eles testaram você?
No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar não senti o gosto da comida voltei para o trabalho atordoado.

E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma coisa. (Plínio Delphino - Lista do Terceiro Setor) www.usp.br

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

No Calor do Momento

Resolvi fazer uma experiência. Quem puder, participe. Agora são 23h26, há exatos 40 minutos terminei de assistir a um filme no Goiânia Shopping. A Dama na Água, escrito, produzido e dirigido por M. Night Shyamalan. Geralmente espero algumas horas para digerir e opinar. Foi bom ou ruim?

Entretanto, resolvi escrever sobre ele agora, extasiado diante de reflexões. É bom ressaltar que já estive diante de algumas opiniões breves. Hebert e eu saímos dizendo que teria sido melhor assistir a Miami Vice, pois A Dama... é filme de Sessão da Tarde. Ana Carolina disse que foi melhor ver este, já o que o outro é "enlatado americano". Meu irmão Marllus gostou. "Os caras ficam reclamando, mas achei muito bom. Melhor que A Vila", me disse. Eduardo Sartorato não pôde comentar o filme por falta de tempo.

O negócio é o seguinte: o filme mexeu comigo. Estou encantado. Desta vez não há suspense a ser desvendado com em A Vila ou Sexto Sentido. A história é um absurdo. É tão bobinha que você custaria acreditar nela. Mas é bem armada e te levar a entrar no enredo. Nisto o cara é bom.
Um pensamento enunciado por uma das personagens reverbera em mim. "As pessoas acham que estão sozinhas, mas não estão. Um simples ato seu mexe com a vida de todo mundo". Me ganhou. Adoro ir no cinema e pensar na vida, durante poucas horas que fico no escurinho. No mundo, somente eu e a tela. Adoro mais ainda quando o filme me instiga, mesmo bobinho.

Pensamentos martelam dentro de mim. Será que se eu tivesse tomado uma atitude qualquer diferente em qualquer momento da vida, estaria aqui hoje? Será que as pessoas que conheço seriam as mesmas, se eu tivesse andado para o lado oposto ao que andei, qualquer dia desses? Essas idéias devem pipocar na minha cabeça até eu dormir. Contudo, sumirão. Sou assim, fogo de palha. Amanhã volto ao normal e deixarei de fazer filosofia barata.

Resumo da ópera: até agora gostei muito do filme. Um bonito conto de fadas. Minha experiência consiste em saber se mudarei de opinião nos próximos dias. Volto a escrever neste espaço sobre isso e trago o resultado. Prometo ser sincero. Se você assistir ao filme neste intervalo, ou mesmo depois, dê seu depoimento também. Agora, deixa eu ir. Posso ficar muito tentado a editar e modificar a opinião.

P.S. – Não deixe de ler e comentar a história abaixo. Obrigado.

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

O cheiro da mexerica

Aos leitores do blog: gostaria de ressaltar que a Andrea não concorda com a forma como a retratei como personagem. Deixo claro que essa é minha maneira autoral (pessoal e diferente de qualquer outro observador) de ter apurado e escrito esta história. Todo o enredo refere-se ao ponto de vista de Bernardethy. Nada foi inventado.
Adicionado em 15/07/08

"Ela me falou: ‘Mãe, hoje eu desmaiei de fome’. Antes de sair pra faculdade, tinha me pedido dois reais pra comprar lanche e eu disse: ‘Não tenho, filha’. Me marcou muito."

Bernadethy de Souza estava sentada na sala de TV da sua casa, em um sofá cor de pêssego, quando lembrava da filha Andrea, de 21 anos. Os cabelos eram lisos, pretos com esparsos fios brancos, denunciando a chegada dos 51 anos. O corpo moreno, miudinho. O sotaque nordestino, bem perceptível, apesar de quatro décadas de Goiás. A voz, suavemente rouca. Os olhos encherem d’água. Lembrou minha mãe. Vestia uma blusa de tecido leve preta com flores brancas e saia jeans. A havia conhecido dias antes, na feira livre onde trabalha ao lado do Ateneu Salesiano Dom Bosco, Setor Oeste, Goiânia.

Todos os dias ela acorda às 4 da manhã e prepara-se para trabalhar. É feirante. A escuridão da madrugada, seu funcionário Tiago e a velha Kombi surrada são os companheiros de jornada. Às vezes, Fernanda, a filha mais nova, de 20 anos, a ajuda quando não tem de ir à faculdade. A rotina se repete há 38 anos, com algumas interrupções justificadas.


A revelação
– Mas... A senhora não é a mulher do seu Vilmar – disse a costureira a Bernadethy.
– Como assim. Claro que sou – respondeu a feirante.

Ela havia saído cedo de casa, onde deixara as duas filhas pequenas para encomendar a roupa em uma das melhores costureiras do Setor Aeroviário, em Goiânia. Andrea tinha cinco anos e Fernanda, quatro. Elas recebiam atenção exclusiva da mãe que havia largado o ofício e casado assim que foi pega de surpresa com a primeira gravidez.

– Ele sempre vem aqui com outra moça pra fazer roupas... – emendou a costureira.

Mas como era possível? O casamento não é para sempre? Um homem casado não deveria ser fiel? A ficha caiu na hora. Ela tinha 30 anos quando casou grávida. A lembrança do dia do casamento simples na Igreja Católica (a igreja dele, goiano) lhe confundia. Lá na Paraíba onde nasceu, a formação fora evangélica.

“Mas afinal a Bíblia é uma só e é a mesma para todos os cristão, não é? Casamento é pra sempre. O que Deus uniu, o homem não separa. Mas quando a gente é nova, a gente é muito ingênua”.

Esquecendo-se do pedido, ela saiu de volta para a casa. O sol quente cobria a cidade. O tempo seco do Cerrado misturava-se com a fumaça preta dos veículos. Aquela curta conversa agora dividia sua vida. Todos já sabiam, vizinhos, a família dele e até amigos. Agora era sua vez.

Sua irmã fez o favor de ir conferir naquela mesma tarde em um dos lugares que ele costumava freqüentar em companhia da moça. Um namoro firme foi o que a detetive improvisada conseguiu descobrir. Daquele tipo que se anda de mãos dadas nos passeios públicos. As trocas de carinho eram despreocupadas até mesmo entre conhecidos. Bernadethy custou aceitar a identidade daquela que amava seu amado.

“Ele foi meu primeiro amor. Achei que seria para sempre. Mas as coisas são assim. Quando a gente vem da roça pra cidade, conhece muita gente, muda a cabeça, se envolve com outras coisas. A imaturidade e a gravidez nos levou ao casamento. Eu estava apaixonada. Mas, são coisas que acontecem...”

Várias vezes a outra namorada do marido havia entrado em sua casa. Trabalhava com ele em uma loja no centro comercial de Setor Campinas, conhecido pela grandes opções para tudo que envolve indústria têxtil na capital goiana. Com duas filhas pequenas dependentes em casa, eles decidiram que não seria bom ela continuar com o trabalho. Era melhor que ele batalhasse a sobrevivência da família.

Naquela mesma noite, depois que Bernadethy recebeu a notícia confirmada da irmã, Vilmar chegou em casa do trabalho. Ela havia chorado escondido. Furiosa, fez questão de deixar o rosto seco, para a conversa que teria dali a pouco na sala de TV da casa que eles alugaram para viver.

– Por que você fez isso? – perguntou ela, sem mais explicações.

Ele ficou em silêncio. Já antevia o que a mulher tinha descoberto.

– Não precisava disso – emendou ela – Era só falar que a gente se separava.
– È que tenho minhas responsabilidades com a família. Não me separei por causa dos meus pais. E tem as meninas...
– E desde quando é preciso ficar com alguém para criar bem uma família – ela sentia bem o nó na garganta.
– Eu sei...
– Sabe de uma coisa?
– O quê?
– Se for por isso, não te quero mais dentro desta casa.

O pedido, apesar de ter Vilmar de surpresa, não teve objeção. Era desejado, aliás. Calado, um simples gesto de cabeça confirmou o que a esposa pediu. Saiu de casa, com mala e tudo, naquele mesmo instante.

“As meninas ficaram com raiva muito tempo. Até pouco tempo atrás me questionavam: por que você mandou ele embora? E eu sempre tinha que explicar para elas. A Andrea foi a que mais resistiu. Tive alguns pequenos namoros durante estes últimos 16 anos. Muitas vezes elas não aceitavam o fato de eu estar com outro namorado.”

Quando diz isso Bernadethy, afina a voz e aumenta ainda mais o tom meigo. Vez ou outra, quando fala sobre o ex-marido, que continuou vendo as meninas, os olhos brilham, as mãos ficam inquietas. O sorriso sempre presente ganha um ar ainda mais tímido e nervoso.

“Tive bons relacionamentos depois. Com um rapaz mais novo que eu, por exemplo, mantenho contato até hoje, porque virou amigo. Toda vez que preciso dele pra arrumar algum problema, tipo no carro, ele vem aqui e ajuda. Mas até hoje eu não encontrei ninguém que me merecesse...”


Uma alegria
Um dia depois de se separar, Bernadethy tomou a decisão. Voltou a trabalhar nas feiras. De quinta a terça. Quarta ela descansa. “É como se fosse meu Domingo” . Dali em diante Vilmar pagou a pensão devida, mas o dinheiro não pôde sustentar completamente a casa. Dava somente para as necessidades básicas das meninas.

“É quase impossível alguém da minha idade encontrar uma colocação no mercado. Só tenho o segundo grau. Tinha até o sonho de ser enfermeira, cheguei a começar um preparatório de atendente de enfermagem e trabalhei por pouco tempo no HGG [Hospital Geral de Goiânia]. Mas tive que parar para ser mãe”.

O sonho de ser enfermeira teve que ser adiado. Madrugada após madrugada ela passou pelo fim da infância e a adolescência completa das filhas. Em 2006, ele teve uma da maiores alegrias de sua vida.

– Mãe terei que desistir do curso para tirar meu brevê? – disse Andrea, agora estudante de Ciências Aeronáuticas da Universidade Católica de Goiás.
– Ai querida, acho que sim. 700 reais está muito pesado pra mamãe.

Estagiária no Aeroporto de Goiânia, Andrea compartilhava com a mãe as dificuldades pagar o curso universitário de três anos. “Larga disso, isso é curso de rico!”, escutou várias vezes. Mas, não! Ela não desistiria.

Entendia muito bem que os 400 reais líquidos semanais que a mãe regularmente retira das feiras não estavam sendo suficientes para custear as despesas da casa, pagar o curso de Ciências Contábeis de Fernanda e completar a mensalidade do curso que exigia quase 2000 horas de vôo para tirar a permissão para voar e ser comandante. Ela decidiu, então, que acumularia o maior número possível de horas de vôo acompanhado para conseguir a carga horária necessária.

Um barulho lá em baixo, onde ficavam estacionadas as aeronaves, sobressaltou Andrea.

– Nossa vou lá. Deve ser passageiro. Quem sabe não está precisando voar.

Na parte inferior do hangar, seu Sebastião, um rico empresário, conversava com o responsável pelo local.
– Quem é aquela moça inquieta que está ali em cima.
– Ah, aquela é Andrea. Nossa estagiária. Ela é muito boa.
– Por que ela está olhando pra cá com insistência. Será que perdeu alguma coisa.
– Não sei, deve estar querendo saber se vai haver algum vôo. Ela me disse que está precisando de horas de vôo para tirar o brevê.
– Chama ela aqui. Quero ver se é boa de vôo mesmo.


Valeu a pena
Dois meses depois, Andrea recebia instruções de Sebastião, o seu Tião.

– Andrea, você tem duas opções.
– Sim. Quais?
– Ou te pago 7 mil reais brutos, e aí você precisa arcar com todas as despesas de hotel, os custos com os vôos, o transporte pela cidade. Ou te dou 1.600 livres, e cuido com o resto.
– Posso pensar?
– Claro que pode.

Depois de conversar com os pais ela decidiu pela segunda opção. Dias depois, após fazer sua primeira viagem a Palmas, onde se estabeleceria, ligou para a mãe:

– Mãe, a senhora não vai acreditar.
– O que é, filha?
– Eu tô dirigindo um carro novinho que eles arrumaram pra mim.

“Ela está muito feliz. Isso prova que a gente tem que fazer o que gosta e não o que os outros dizem pra você fazer. Quantas vezes ela escutou que filha de feirante tinha era que ir para feira trabalhar. Hoje é Comandante...”

A voz rouca frisa lentamente o cargo. Quase que não sai.

“Agora é a vez de Fernanda. A gente tá com um pouco de dificuldade de continuar pagando o curso dela que está pra ir pro segundo semestre. Talvez tenha que trancar... Não sei. Esses dias mesmo eu estava desesperada, conversado meu gerente lá no banco e ele me disse: ‘Fica calma. A gente dá um jeito. Você já conseguiu tanto coisa. Não fica estressada’. É claro que ficar rendendo um pouquinho de juros é bom para ele, mas eu acabei concordando. Já passei por tanto aperto”.


Dia de Feira
Certa vez, a feirante, filha de feirantes, a mais velha entre dez, três mulheres e sete homens, tentava ajudar uma cliente que revirava freneticamente a mercadoria exposta. Queria escolher algumas frutas. Aparentemente mal-humorada, a mulher parecia não prestar atenção no que fazia, o que preocupava a dona da banca.
A certa altura, um abacaxi amassou.

– Mas a senhora tem de levar a fruta que estragou – exigiu, da forma mais educada que conseguiu.
– De forma alguma eu vou levar algo estragado – retrucou a freguesa.

Sem paciência, a vendedora sentiu-se afrontada e começou a discutir com a mulher. Teve de se acalmar, quando a filha Fernanda, ainda adolescente, que a ajudava nas vendas, chamou-a em um canto.

– Mãe, não foi a senhora mesmo que disse que o cliente tem sempre razão?

Diante da lembrança não mais esquecida, ela apagou da memória a discussão. Com as desculpas da feirante aceitas, a freguesa que não ficou freguesa foi embora sem levar uma fruta sequer.
Esquecendo-se do ocorrido, Bernadethy continuou a descascar a cheirosa mexerica que um dia atraiu meu olfato, além do sorriso tímido.

Quando a conheci, entre um troco e outro, ela era toda concentração para conversar comigo e não deixar de dar atenção aos fregueses, muitos deles antigos conhecidos. Às 10 horas da manhã era quase impossível se lembrar que ela estava por lá desde as 4 horas. Alguns minutinhos depois, ela deixou escapar, enquanto se despedia carinhosa de uma freguesa assídua, que há poucos dias havia se dado a um luxo quase impensável para um feirante:

– Volte depois, princesa. Senti saudades de você enquanto estava de férias.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Monólogo Interno - Sensações do amor

Bendita a hora em que a campanhia tocou naquele dia.

– Será que é mais um pedinte.

Descrente desci as escadas e quando olhei lá para frente meu coração bateu mais forte.

– Nossa! Ela veio.

– Que legal, pensei que não iria aceitar o convite.

Já lá dentro:

– Não acredito que está aqui. Será que vai demorar.

Um mês e alguns dias depois, na casa da frente:

– Por que chora por aquele besta? Mas que cara imbecil, será que não percebe que garota legal está magoando.

Um ano depois:

– Nós precisamos conversar. Tenho que dizer tudo o que sinto – decidi.

Depois de um 'jantar' no pit dog do Chico, na famosa pracinha da rua 68:

– Que massa! Quando eu disse pra ela tudo o que eu queria, já pela segunda vez, ela demonstrou outra cara.

Há seis meses:

– Será? Ela estava toda aberta, mas não respondia aos meus olhares....

Há dois meses e meio depois de um beijo:

– Um ano vai passar logo. Afinal a gente se ama e vai ficar junto pra sempre.

Há alguns segundos, depois de ler em uma mensagem no encarte de um pequeno CD com as nossas canções, recém ganhado. "Se eu soubesse fazer música, faria uma tão bonita quanto essa para você":

– Eu realmente a amo pra valer.

Uma lágrima que escorrer pelo cantinho do olho.


EU TE AMO DEMAIS. FELIZ 4 MESES!!!

Que eles se tornem 4 anos, 4 décadas, 4 séculos...