terça-feira, 12 de junho de 2007

De Férias

Estou sem jeito de escrever muito por aqui, porque estamos correndo demais. Aqui vai uma foto do Salar de Uyuni, na Bolívia, passeio que fizemos no fim da semana passada. Nela, Lucimeire, Eduardo, Lorena e eu. Marina está atrás da máquina.
Crédito: Marina Mercante

terça-feira, 22 de maio de 2007

Eu também me divirto

Hoje posso dizer que me encontrei sendo jornalista da área cultural. Durante a faculdade tinha preconceito contra profissionais que cobriam cultura, caindo na mesmice de achar trabalho fácil, como até hoje acham alguns profissionais...

Obviamente depois que passei a trabalhar na editoria saquei que este tipo de jornalista trabalha tanto quanto em qualquer outra. Na maior parte das vezes uma matéria em segundo caderno consome a mesma energia que um repórter de Cidades, por exemplo, gasta para fazer uma matéria especial. Como factual em cultura é mais raro, a informação tem de ser "cavada".

A parte boa é que viaja mais que o normal das outras editorias. Nestas horas é que eu adoro ainda mais a área. E mesmo que a futilidade esteja presente em algumas coberturas, sem me acrescentar em nada como pessoa, me divirto muito.

Na semana passada cobri o Prêmio Tim de Música no Rio de Janeiro. Nunca vi tanto global debaixo do mesmo teto. Não que me importe muito (depois que conheci minha primeira celebridade, elas perderam o brilho), mas ainda perco o fôlego ao subir de elevador com Fernanda Montenegro ou sentir o perfume de Camila Pitanga – com todo respeito. E rio muito com as intrigras que a mídia "especializada" que cobre celebridades provoca:

– Alcione, o que você achou da briga entre a Luana Piovani e o Caetano Veloso?
– Mas o que aconteceu?
– Ela chamou ele de "banana de pijama".

Marrom pensa um pouco e responde:

– Ela tem de lavar a boca para falar dele.

Ha, ha, ha, ha. E mais uma briga via imprensa estava instalada.

Na foto, um flagra da calcinha de Luma que presenciei.

sábado, 12 de maio de 2007

De Black-Tie é mais elegante


Desde que decidi ser jornalista, sonhei realizar muitas coisas. Sonhei escrever matérias que ajudassem as pessoas a refletirem. Sonhei prestar um serviço, que para quem não é do meio parece mérito somente do veículo, mas que na verdade carrega 90% do suor de quem o faz.

Ontem, 28 corajosos jornalistas que trabalhavam no Diário da Manhã foram demitidos porque tiveram a dignidade de mostrar o sentimento de serem desreipeitados em seu direito básico de receber pelo trabalho realizado, vestindo-se de preto. Nunca trabalhei no DM. Meu caminho não cruzou com o de muita gente que está entre os 28. Mas admiro todos.

Assim como sonhei, sei que muitos também o fizeram. Que lutaram e lutam no dia-a-dia para burlar os interesses e as birras de empresários mimados que fazem "jornalismo" em que a última prioridade é o leitor/ouvinte/telespectador/internauta.

Só uma coisa a dizer a eles: Batam no peito de orgulho por não se calarem. Por agir. Por fazerem tudo o que podiam. Vocês deram o suor e merecem algo melhor. Se calar a boca de quem pede por condições melhores é a opção deles, é porque não sabem o que realmente é Jornalismo. Infelizmente quem perde são os leitores, que às vezes nem mesmo racionalizam que um bom jornal não brota sozinho e sim de mentes pensantes e inteligentes, mas que sabem reconhecer muito bem um bom. Alcancem vôos mais livres. E de black-tie, que é mais elegante.

sábado, 28 de abril de 2007

Uma Páscoa Multireligiosa

Depois de pouco mais de um ano, estive dentro de uma igreja de novo no último domingo de Páscoa. Assisti à missa de sétimo dia da minha avó materna. De família tipicamente goiana desde pequeno fui criado sob os ritos da Igreja Católica. Quem me conhece sabe que há pouco mais de cinco anos decidi que não iria mais freqüentar nenhum tipo de instituição religiosa, por convicção de que este tipo de fé já não mais me pertencia.

Ainda bem que quando mais o tempo passa mais maduros e sábios ficamos. Se estivesse na mesma situação há cinco anos tudo seria diferente. Talvez teria uma daquelas célebres reações de garoto-sabe-tudo e menosprezaria o ambiente religioso, julgando tudo um engodo dos bispos. Verdade ou não, isso já não me importa mais.

Para ser franco, o fato dos católicos celebrarem sua religiosidade com a cara de quem está indo para forca, com grande pesar nos ombros, até hoje me incomoda muito. A maioria nem presta a atenção no que está fazendo. Assim foram ensinados. Paciência!

Há tempos estou no que gosto de chamar de estado de suspensão, do qual talvez nunca saia. Trata-se daquele espírito de quem não crê e nem descrê. Já disseram vários cientistas que até mesmo os ateus têm sua religião – alguns encaram a ciência como a sua. Ou seja, todo mundo que vive crê em algo, mesmo que seja somente na “verdade” de átomos e moléculas. Posso até me encaixar em um rótulo, mas odeio ser chamado de ateu ou agnótisco.

O que passei a achar, ironicamente, é que bem ou mal a Igreja talvez tenha sido e, na maioria esmagadora dos casos continua sendo, muito pertinente à humanidade. Tem todos os defeitos do mundo possíveis em uma instituição fundada e mantida por homens. Mas como seria uma mundo sem igrejas? As pessoas seriam capazes de julgarem, a princípio, por si próprias, o que é bom ou não, se não tivessem que ter medo do Papai do Céu? Sinceramente, minha fé na "bondade inata" da humanidade nunca foi forte...

O alento é que, com todas as suas falhas, o Universo que criou o homem teve sabedoria de implantar nele crenças que, mesmo com graves efeitos colaterais como guerras religiosas fudamentalistas, conseguem regular a moral e levar muita gente por aquilo que se chama de “caminho do bem”.

Se eu criaria meus filhos como meus irmãos e eu fomos criados dentro da igreja? Sim, se isso fosse muito importante para a mãe deles. Caso contrário, não, mesmo sabendo que me norteio em princípios de bondade e ética, por ter sido criado dentro de igreja – obviamente por mérito dos meus pais e não dos senhores de batina. Quero mostrar a eles que se pode acreditar no que sua necessidade permite ou a intuição manda. E que esta é a beleza de um mundo de muitas religiões, sejam elas no sentido bíblico ou não.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Um Pai

Depois de um tempo longe, estou de volta. Fiz umas pequenas mudanças. A vida é a assim a gente tem de mudar para encontrar novas forças. Aproveitando que estamos a dois dias da Páscoa, publico uma adaptação da narrativa que entreguei como trabalho final da especialização. O tema é pertinente nesta data. Quem me conhece bem sabe que tenho visões bem diferentes das usuais sobre religiosidade. E tenho uma peculiar. Boa leitura.

UM PAI

Aos oito anos de idade, a pequena Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, estava sozinha no quarto semi-escuro e teve uma experiência que a marcou bastante. Em seu quarto uma figura negra aparece.

– Quem é você? – questiona a menina, sem resposta.

Sempre teve muitos pesadelos à noite. O sono é muito agitado. Nesta noite de 1960 em seu quarto, ela grita muito. Os pais se levantam e vão até lá para saber o que estava acontecendo.

Bernadete conta que a figura lhe falou que não adiantava chamar ninguém, porque continuaria a aparecer sempre que estivesse sozinha.

Em uma manhã ensolarada de janeiro de 2007, ganhei a oportunidade de contar para alguns milhares de leitores a história de Bernadete, de acordo com suas palavras.

A manhã já é alta. No Adress Hotel de Goiânia, nenhuma exaltação entre os hóspedes. Nas ruas da cidade um forte Sol ilumina os verdes e floridos canteiros da avenidas da cidade.

Toda de negro, ela em nada lembra a pequena Bernadete. Não fosse os 54 anos e o rosto conhecido, qualquer um diria que trata-se de mais uma emo – representante da tribo urbana jovem que renovou o estilo punk de ser. Camiseta vazada como uma meia arrastão por baixo de uma regata, calça colada e mini-saia por cima, botas plataforma, ela se destaca dos demais pela cor do cabelo. Violeta, tinta recém retocada.

Tira os óculos escuros. Cumprimenta com um aconchegante abraço, desculpa-se pelo atraso e pede mais um tempo.

– Essa é quem estou pensando? – pergunta uma senhora sentada ao sofá de espera.
– É sim – respondo presumindo a conclusão.

Baby Consuelo. Baby, que já não é mais Consuelo, mas do Brasil. Espevitada e gentil. O sorriso continua o mesmo de quando eu era criança e ela cantava mostrando-os e dizendo que tudo era azul, inclusive Adão e Eva no paraíso.

Bernadete, ou melhor Baby, tornou-se há pouco mais de sete anos evangélica. Virou “popstora”, como gosta de dizer, da igreja Ministério do Espírito Santo de Deus em Nome de Jesus, no Rio de Janeiro, fundada por ela em 2003. Desde então não fala mais palavrão.

– Quando Ele falou comigo fiquei assustada e pensei: “os outros evangélicos vão pirar comigo”. Existe um lado evangélico muito radical que não abre para nada. Do outro lado as portas são abertas para todos. É importante que todos conheçam a mensagem de Jesus. Não é só ser careta, porque o lado punk e heavy também existem na igreja.

Em 1999, ano da conversão, tinha 46 anos. Estava em casa, no quarto. De repente sente que algo muito forte a percorre por todo corpo. É como se uma voz a penetrasse em um lugar muito especial. Um timbre inconfundível. Foi o primeiro contato verdadeiro com Deus. O chamado.

– Você é cristão? – pergunta-me.
– Sou sim.
– Glóóória ao senhoooor. Você sabe que no céu não entra bunda mole, não, hein. Só casca grossa... Ha ha ha ha.

Baby é esforçada diante da missão. Desde que optou por entrar para o rebanho do Senhor não teve mais nenhum namorado. Pelo menos nenhum que “estivesse na mesma onda”. Abstinência total de sexo. Nem sequer beijo na boca. Amigos se afastaram, com medo que se transformasse em uma chata pregadora.

– Como você vê, durante esse tempo todo, isso não está acontecendo – garante.

Nos últimos anos, esteve em baixa no mercado da música, por adotar somente o gospel. Mas o dom divino de cantar agora será usado para arrebanhar novos fiéis. Duas gravadoras de porte nacional estão analisando a proposta de um novo projeto. Um CD duplo, metáfora de suas duas facetas perante o público. De um lado do encarte, um CD com a Baby dos velhos tempos, como nas canções Menino do Rio, Todo Dia Era Dia de Índio, Sem Pecado e Sem Juízo. Do outro lado, músicas de adoração e louvor.

É que Deus lhe disse que era uma vitrine. Que todos estão na grande expectativa, com os olhos voltados a ela para saber a que horas vai ficar fanática de vez. Que uma das coisas positivas em sua fama é justamente atrair as pessoas que querem saber ser realmente é bom ou não ser cristão.

Para conquistar novas ovelhas para o rebanho do Senhor, vale os artifícios da beleza. A pele é muito bem cuidada, vistosa e hidratada. Gosta de se enfeitar. Um dia pode acordar “muito punk”, em outro pode estar de roupa comprida. Faz questão de dizer que não faz nenhum compromisso com a moda. Mas o violeta da tinta do cabelo está no auge, assim como suas roupas com estampas de oncinha.

A oncinha, aliás, faz parte da decoração da recepção, nas almofadas e cortinas, de sua igreja no Rio de Janeiro. Próteses de silicone nos seios, pele em excesso acima dos olhos tirada, agora quer perder cinco quilos e ganhar músculos para ficar saradona.

Enquanto continuamos nosso passeio pelo hotel, seu celular toca. Baby escuta atentamente e o semblante fecha; o sorriso apaga-se por alguns instantes. Pede-me cinco minutos. Tem de ajudar a mãe que está no Rio de Janeiro e precisou de um atendimento médico.

Quando fico sozinho penso sobre como Baby às vezes parece uma criança assustada em busca de apoio. Uma criança que teme desgarrar-se das mãos paternas e perder-se no meio de uma multidão.

Passei boa parte da minha vida querendo entender porque os seres humanos são tão necessitados de uma figura que as protejam de tudo e de todos, uma figura paterna, poderia dizer. Algo que as dê um norte, explique por que estão aqui e as guie.

Em Baby encontro mais perguntas que respostas.

– Sabe o que espero do amanhã? – atiça-me ela, invertendo as posições, pouco depois de voltar.
– O quê? – devolvo a pergunta.
– Sempre o melhor, porque consagrei o futuro a Ele. Tenho certeza de que se continuo com Ele o amanhã é certo. Renovo como Ele a cada manhã e não há nada mais delicioso. É um prazer que não tem explicação. Não há nenhum tipo de droga que possa trazer a onda que o Espírito Santo traz. Nem maconha, nem vinho, nem LSD. Nada é igual. – Pausa breve. Silêncio – Olha só, até me arrepiei toda.

* * *

Chorando sozinha em seu quarto a pequena Bernadete novamente encontra-se com a figura negra.

– Eu não disse que ninguém iria lhe ajudar? – diz-lhe a voz taciturna.

A menina sente-se em um abismo. Sofre uma das maiores dores de sua vida. Lembra-se das histórias que a avó lhe contava sobre a vida de Jesus, um homem que ressuscitava os mortos, operava milagres, ensinava que cobiça maliciosa de coisas materiais não era legal e que as pessoas deveriam amar-se uma às outras.

Lembra que lhe contou que os homens mataram esse cara que tinha o poder de ressuscitar os mortos. “Por quê?” – pergunta-se internamente. Vê que está em um mundo em que se matam pessoas santas, sem justificativa. Um grito ecoa dentro dela. A voz taciturna a manda para a janela e cair.

Quando chega bem próximo do abismo, que dá para uma enorme queda, algo segura Bernadete. Uma outra voz fala:

– Cuidado.

“É a voz de Deus”, pensa. No mesmo instante, sai de perto da janela.

terça-feira, 31 de outubro de 2006

Invisibilidade Pública

Seguinte: como estou sem tempo para produzir, enquanto não estiver escrevendo por aqui vou publicar textos que acho interessante e que tem a ver com Jornalismo Literário. Esta matéria que segue não foi escrita em JL, mas tem tudo a ver com uma das premissas dele, a imersão. Recebi por e-mail. Ela foi retirada do site da Universidade de São Paulo, a USP. Olhem que coisa mais óbvia, mas que nunca percebemos. Muito interessante.



Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da invisibilidade pública"

"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"


Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.

>> O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são "seres invisíveis, sem nome".

Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da "invisibilidade pública", ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.

Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida: "Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência", explica o pesquisador.

O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. "Professores que antes me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão", diz.

Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humilhações diárias, segundo o psicólogo, [os invisíveis] são acolhedores com quem os enxerga.. E encontram no silêncio a defesa contra quem os ignora.

Como é que você teve essa idéia?
Fernando Braga da Costa - Meu orientador desde a graduação, o professor José Moura Gonçalves Filho, sugeriu aos alunos, como uma das provas de avaliação, que a gente se engajasse numa tarefa proletária. Uma forma de atividade profissional que não exigisse qualificação técnica nem acadêmica. Então, basicamente, profissões das classes pobres.

Com que objetivo?
A função do meu mestrado era compreender e analisar a condição de trabalho deles (os garis), e a maneira como eles estão inseridos na cena pública. Ou seja, estudar a condição moral e psicológica a qual eles estão sujeitos dentro da sociedade. Outro nível de investigação, que vai ser priorizado agora no doutorado, é analisar e verificar as barreiras e as aberturas que se operam no encontro do psicólogo social com os garis. Que barreiras são essas, que aberturas são essas, e como se dá a aproximação?

Quando você começou a trabalhar, os garis notaram que se tratava de um estudante fazendo pesquisa?
Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal. Chegando lá eu tinha a expectativa de me apresentar como novo funcionário, recém-contratado pela USP pra varrer rua com eles. Mas, os garis sacaram logo, entretanto nada me disseram. Existe uma coisa típica dos garis: são pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos em geral. Eu sou branquelo, mas isso talvez não seja o diferencial, porque muitos garis ali são brancos também. Você tem uma série de fatores que são ainda mais determinantes, como a maneira de falarmos, o modo de a gente olhar ou de posicionar o nosso corpo, a maneira como gesticulamos. Os garis conseguem definir essa diferenças com algumas frases que são simplesmente formidáveis.

Dê um exemplo?
Nós estávamos varrendo e, em determinado momento, comecei a papear com um dos garis. De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão. O sujeito passou pela gente e não nos cumprimentou, o que é comum nessas situações. O gari, sem se referir claramente ao homem que acabara de passar, virou-se pra mim e começou a falar: "É Fernando, quando o sujeito vem andando você logo sabe se o cabra é do dinheiro ou não. Porque peão anda macio, quase não faz barulho. Já o pessoal da outra classe você só ouve o toc-toc dos passos. E quando a gente está esperando o trem logo percebe também: o peão fica todo encolhidinho olhando pra baixo. Eles não. Ficam com olhar só por cima de toda a peãozada, segurando a pastinha na mão."

Quanto tempo depois eles falaram sobre essa percepção de que você era diferente?
Isso não precisou nem ser comentado, porque os fatos no primeiro dia de trabalho já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não era um gari. Fui tratado de uma forma completamente diferente. Os garis são carregados na caçamba da caminhonete junto com as ferramentas. É como se eles fossem ferramentas também. Eles não deixaram eu viajar na caçamba, quiseram que eu fosse na cabine. Tive de insistir muito para poder viajar com eles na caçamba. Chegando no lugar de trabalho, continuaram me tratando diferente. As vassouras eram todas muito velhas. A única vassoura nova já estava reservada para mim. Não me deixaram usar a pá e a enxada, porque era um serviço mais pesado. Eles fizeram questão de que eu trabalhasse só com a vassoura e, mesmo assim, num lugar mais limpinho, e isso tudo foi dando a dimensão de que os garis sabiam que eu não tinha a mesma origem socioeconômica deles.

Quer dizer que eles se diminuíram com a sua presença?
Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger.

Eles testaram você?
No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar não senti o gosto da comida voltei para o trabalho atordoado.

E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma coisa. (Plínio Delphino - Lista do Terceiro Setor) www.usp.br