quarta-feira, 23 de julho de 2008

Goianidade

Fazendo uma pesquisa no Centro de Documentação do jornal para escrever uma matéria sobre o historiador goiano Paulo Bertran, morto em 2005, encontrei uma crônica saborosa publicada à época de sua morte. Não costumo fazer isso com freqüência, mas peço licença para minha colega Conceição Freitas, até então no Correio Braziliense, para publicá-la. Acredito que textos preciosos devem ter todas possibilidades de publicação. É um dos textos mais lindos sobre goianidade que li (e eles são raros). Saboreie também:

Goiás, Goiás

Conceição Freitas

Chega-se ao pouquinhos em Goiás Velho. Os preparativos para a chegada começam no Jerivá, a hoje rede de acepipes goianos, parada mais que obrigatória para quem toma o rumo das coisas goianas. Pamonha de doce, de sal, de queijo, de lingüiça, curau, marmelada de Santa Luzia, empadão goiano, carne de porco, guariroba, jurubeba, goianidade suprema.

O sotaque que engole a última vogal ("rio Vermei"), que engorda o R e que tem doce melodia sertaneja e que pode ser ouvido a menos de 50 km, a babel brasileira. Paulo Bertran dizia, no seu mais forte entusiasmo, que a capital do país fabricará o brasileiro mais perfeito, fruto da combinação cultural e étnica de todas as regiões.

Depois de Anápolis, Goiás fica bem mais goiano. O Zé do Pedro ainda deixou uma faixa da última campanha política. O Bar do Junin tem mesas amarelas, pinga com jurubeba, ovo cozido e cerveja gelada. A Creonice vende não se sabe o quê, mas o nome dela está embandeirado numa fachada de um estabelecimento comercial. Vende-se "porvilho", assim mesmo, tal qual se pronuncia. O Café Boca de Pito deixa uma dor fina de saudade de um país tão mais ingênuo e tão mais esperançoso.

Inhumas, Itauçu, a cada quilômetro em direção à Serra Dourada, Goiás vai se encharcando de goianidade. Muitos cachos de banana pendurados à entrada dos armazéns, magotes de guariroba, casas de no mínimo 50 anos, de telha francesa, pé direito baixo e varanda. Goianos envelhecem, porque não haveria de ser diferente, mas não engordam. Talvez porque acordem cedo, façam o pito do café para o pito do cigarro de palha, ponham o chapéu na cabeça e saiam trilheiro afora, seguindo os passos de ontem, de anteontem, de tresantontem, de uma ancestralidade intacta.

A cidade de Goiás se anuncia nas meninas morenas, montadas em vespas, numa elegância de página de revista feminina. Goiás nem precisa dizer aqui estou eu porque a Serra Dourada expande o coração da gente. Goiás está cada vez mais preciosa ou será a goianidade aflorada nos últimos dias com os
2 Filhos de Francisco e agora tristemente aguçada com a morte do amigo Bertran.

O homem que põe a almofada na janela e se apóia para ver a passagem dos visitantes, ou outros de chapéu de palha sentado no batente, o bêbado que passa a manhã inteira puxando prosa com quem quer que seja, o velho mercado do arroz com pequi, o macarrão ensaboado de molho vermelho, o frango bem cozido com açafrão, os paralelepípedos, os telhados, as igrejas, dá uma vontade de ter nascido aqui, de nunca ter saido daqui, e de dizer que eu sou goiana. E nem sou, mas amo Goiás assim mesmo.

Publicado na Seção Crônica da Cidade, Correio Braziliense, em 04/10/2005

Um comentário:

Luciano disse...

Também gostei da crônica. Ah,e do pequi,guariroba,jurubeba,empadão. Me deu vontade de comer ...(risos)