quinta-feira, 31 de agosto de 2006

O cheiro da mexerica

Aos leitores do blog: gostaria de ressaltar que a Andrea não concorda com a forma como a retratei como personagem. Deixo claro que essa é minha maneira autoral (pessoal e diferente de qualquer outro observador) de ter apurado e escrito esta história. Todo o enredo refere-se ao ponto de vista de Bernardethy. Nada foi inventado.
Adicionado em 15/07/08

"Ela me falou: ‘Mãe, hoje eu desmaiei de fome’. Antes de sair pra faculdade, tinha me pedido dois reais pra comprar lanche e eu disse: ‘Não tenho, filha’. Me marcou muito."

Bernadethy de Souza estava sentada na sala de TV da sua casa, em um sofá cor de pêssego, quando lembrava da filha Andrea, de 21 anos. Os cabelos eram lisos, pretos com esparsos fios brancos, denunciando a chegada dos 51 anos. O corpo moreno, miudinho. O sotaque nordestino, bem perceptível, apesar de quatro décadas de Goiás. A voz, suavemente rouca. Os olhos encherem d’água. Lembrou minha mãe. Vestia uma blusa de tecido leve preta com flores brancas e saia jeans. A havia conhecido dias antes, na feira livre onde trabalha ao lado do Ateneu Salesiano Dom Bosco, Setor Oeste, Goiânia.

Todos os dias ela acorda às 4 da manhã e prepara-se para trabalhar. É feirante. A escuridão da madrugada, seu funcionário Tiago e a velha Kombi surrada são os companheiros de jornada. Às vezes, Fernanda, a filha mais nova, de 20 anos, a ajuda quando não tem de ir à faculdade. A rotina se repete há 38 anos, com algumas interrupções justificadas.


A revelação
– Mas... A senhora não é a mulher do seu Vilmar – disse a costureira a Bernadethy.
– Como assim. Claro que sou – respondeu a feirante.

Ela havia saído cedo de casa, onde deixara as duas filhas pequenas para encomendar a roupa em uma das melhores costureiras do Setor Aeroviário, em Goiânia. Andrea tinha cinco anos e Fernanda, quatro. Elas recebiam atenção exclusiva da mãe que havia largado o ofício e casado assim que foi pega de surpresa com a primeira gravidez.

– Ele sempre vem aqui com outra moça pra fazer roupas... – emendou a costureira.

Mas como era possível? O casamento não é para sempre? Um homem casado não deveria ser fiel? A ficha caiu na hora. Ela tinha 30 anos quando casou grávida. A lembrança do dia do casamento simples na Igreja Católica (a igreja dele, goiano) lhe confundia. Lá na Paraíba onde nasceu, a formação fora evangélica.

“Mas afinal a Bíblia é uma só e é a mesma para todos os cristão, não é? Casamento é pra sempre. O que Deus uniu, o homem não separa. Mas quando a gente é nova, a gente é muito ingênua”.

Esquecendo-se do pedido, ela saiu de volta para a casa. O sol quente cobria a cidade. O tempo seco do Cerrado misturava-se com a fumaça preta dos veículos. Aquela curta conversa agora dividia sua vida. Todos já sabiam, vizinhos, a família dele e até amigos. Agora era sua vez.

Sua irmã fez o favor de ir conferir naquela mesma tarde em um dos lugares que ele costumava freqüentar em companhia da moça. Um namoro firme foi o que a detetive improvisada conseguiu descobrir. Daquele tipo que se anda de mãos dadas nos passeios públicos. As trocas de carinho eram despreocupadas até mesmo entre conhecidos. Bernadethy custou aceitar a identidade daquela que amava seu amado.

“Ele foi meu primeiro amor. Achei que seria para sempre. Mas as coisas são assim. Quando a gente vem da roça pra cidade, conhece muita gente, muda a cabeça, se envolve com outras coisas. A imaturidade e a gravidez nos levou ao casamento. Eu estava apaixonada. Mas, são coisas que acontecem...”

Várias vezes a outra namorada do marido havia entrado em sua casa. Trabalhava com ele em uma loja no centro comercial de Setor Campinas, conhecido pela grandes opções para tudo que envolve indústria têxtil na capital goiana. Com duas filhas pequenas dependentes em casa, eles decidiram que não seria bom ela continuar com o trabalho. Era melhor que ele batalhasse a sobrevivência da família.

Naquela mesma noite, depois que Bernadethy recebeu a notícia confirmada da irmã, Vilmar chegou em casa do trabalho. Ela havia chorado escondido. Furiosa, fez questão de deixar o rosto seco, para a conversa que teria dali a pouco na sala de TV da casa que eles alugaram para viver.

– Por que você fez isso? – perguntou ela, sem mais explicações.

Ele ficou em silêncio. Já antevia o que a mulher tinha descoberto.

– Não precisava disso – emendou ela – Era só falar que a gente se separava.
– È que tenho minhas responsabilidades com a família. Não me separei por causa dos meus pais. E tem as meninas...
– E desde quando é preciso ficar com alguém para criar bem uma família – ela sentia bem o nó na garganta.
– Eu sei...
– Sabe de uma coisa?
– O quê?
– Se for por isso, não te quero mais dentro desta casa.

O pedido, apesar de ter Vilmar de surpresa, não teve objeção. Era desejado, aliás. Calado, um simples gesto de cabeça confirmou o que a esposa pediu. Saiu de casa, com mala e tudo, naquele mesmo instante.

“As meninas ficaram com raiva muito tempo. Até pouco tempo atrás me questionavam: por que você mandou ele embora? E eu sempre tinha que explicar para elas. A Andrea foi a que mais resistiu. Tive alguns pequenos namoros durante estes últimos 16 anos. Muitas vezes elas não aceitavam o fato de eu estar com outro namorado.”

Quando diz isso Bernadethy, afina a voz e aumenta ainda mais o tom meigo. Vez ou outra, quando fala sobre o ex-marido, que continuou vendo as meninas, os olhos brilham, as mãos ficam inquietas. O sorriso sempre presente ganha um ar ainda mais tímido e nervoso.

“Tive bons relacionamentos depois. Com um rapaz mais novo que eu, por exemplo, mantenho contato até hoje, porque virou amigo. Toda vez que preciso dele pra arrumar algum problema, tipo no carro, ele vem aqui e ajuda. Mas até hoje eu não encontrei ninguém que me merecesse...”


Uma alegria
Um dia depois de se separar, Bernadethy tomou a decisão. Voltou a trabalhar nas feiras. De quinta a terça. Quarta ela descansa. “É como se fosse meu Domingo” . Dali em diante Vilmar pagou a pensão devida, mas o dinheiro não pôde sustentar completamente a casa. Dava somente para as necessidades básicas das meninas.

“É quase impossível alguém da minha idade encontrar uma colocação no mercado. Só tenho o segundo grau. Tinha até o sonho de ser enfermeira, cheguei a começar um preparatório de atendente de enfermagem e trabalhei por pouco tempo no HGG [Hospital Geral de Goiânia]. Mas tive que parar para ser mãe”.

O sonho de ser enfermeira teve que ser adiado. Madrugada após madrugada ela passou pelo fim da infância e a adolescência completa das filhas. Em 2006, ele teve uma da maiores alegrias de sua vida.

– Mãe terei que desistir do curso para tirar meu brevê? – disse Andrea, agora estudante de Ciências Aeronáuticas da Universidade Católica de Goiás.
– Ai querida, acho que sim. 700 reais está muito pesado pra mamãe.

Estagiária no Aeroporto de Goiânia, Andrea compartilhava com a mãe as dificuldades pagar o curso universitário de três anos. “Larga disso, isso é curso de rico!”, escutou várias vezes. Mas, não! Ela não desistiria.

Entendia muito bem que os 400 reais líquidos semanais que a mãe regularmente retira das feiras não estavam sendo suficientes para custear as despesas da casa, pagar o curso de Ciências Contábeis de Fernanda e completar a mensalidade do curso que exigia quase 2000 horas de vôo para tirar a permissão para voar e ser comandante. Ela decidiu, então, que acumularia o maior número possível de horas de vôo acompanhado para conseguir a carga horária necessária.

Um barulho lá em baixo, onde ficavam estacionadas as aeronaves, sobressaltou Andrea.

– Nossa vou lá. Deve ser passageiro. Quem sabe não está precisando voar.

Na parte inferior do hangar, seu Sebastião, um rico empresário, conversava com o responsável pelo local.
– Quem é aquela moça inquieta que está ali em cima.
– Ah, aquela é Andrea. Nossa estagiária. Ela é muito boa.
– Por que ela está olhando pra cá com insistência. Será que perdeu alguma coisa.
– Não sei, deve estar querendo saber se vai haver algum vôo. Ela me disse que está precisando de horas de vôo para tirar o brevê.
– Chama ela aqui. Quero ver se é boa de vôo mesmo.


Valeu a pena
Dois meses depois, Andrea recebia instruções de Sebastião, o seu Tião.

– Andrea, você tem duas opções.
– Sim. Quais?
– Ou te pago 7 mil reais brutos, e aí você precisa arcar com todas as despesas de hotel, os custos com os vôos, o transporte pela cidade. Ou te dou 1.600 livres, e cuido com o resto.
– Posso pensar?
– Claro que pode.

Depois de conversar com os pais ela decidiu pela segunda opção. Dias depois, após fazer sua primeira viagem a Palmas, onde se estabeleceria, ligou para a mãe:

– Mãe, a senhora não vai acreditar.
– O que é, filha?
– Eu tô dirigindo um carro novinho que eles arrumaram pra mim.

“Ela está muito feliz. Isso prova que a gente tem que fazer o que gosta e não o que os outros dizem pra você fazer. Quantas vezes ela escutou que filha de feirante tinha era que ir para feira trabalhar. Hoje é Comandante...”

A voz rouca frisa lentamente o cargo. Quase que não sai.

“Agora é a vez de Fernanda. A gente tá com um pouco de dificuldade de continuar pagando o curso dela que está pra ir pro segundo semestre. Talvez tenha que trancar... Não sei. Esses dias mesmo eu estava desesperada, conversado meu gerente lá no banco e ele me disse: ‘Fica calma. A gente dá um jeito. Você já conseguiu tanto coisa. Não fica estressada’. É claro que ficar rendendo um pouquinho de juros é bom para ele, mas eu acabei concordando. Já passei por tanto aperto”.


Dia de Feira
Certa vez, a feirante, filha de feirantes, a mais velha entre dez, três mulheres e sete homens, tentava ajudar uma cliente que revirava freneticamente a mercadoria exposta. Queria escolher algumas frutas. Aparentemente mal-humorada, a mulher parecia não prestar atenção no que fazia, o que preocupava a dona da banca.
A certa altura, um abacaxi amassou.

– Mas a senhora tem de levar a fruta que estragou – exigiu, da forma mais educada que conseguiu.
– De forma alguma eu vou levar algo estragado – retrucou a freguesa.

Sem paciência, a vendedora sentiu-se afrontada e começou a discutir com a mulher. Teve de se acalmar, quando a filha Fernanda, ainda adolescente, que a ajudava nas vendas, chamou-a em um canto.

– Mãe, não foi a senhora mesmo que disse que o cliente tem sempre razão?

Diante da lembrança não mais esquecida, ela apagou da memória a discussão. Com as desculpas da feirante aceitas, a freguesa que não ficou freguesa foi embora sem levar uma fruta sequer.
Esquecendo-se do ocorrido, Bernadethy continuou a descascar a cheirosa mexerica que um dia atraiu meu olfato, além do sorriso tímido.

Quando a conheci, entre um troco e outro, ela era toda concentração para conversar comigo e não deixar de dar atenção aos fregueses, muitos deles antigos conhecidos. Às 10 horas da manhã era quase impossível se lembrar que ela estava por lá desde as 4 horas. Alguns minutinhos depois, ela deixou escapar, enquanto se despedia carinhosa de uma freguesa assídua, que há poucos dias havia se dado a um luxo quase impensável para um feirante:

– Volte depois, princesa. Senti saudades de você enquanto estava de férias.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Monólogo Interno - Sensações do amor

Bendita a hora em que a campanhia tocou naquele dia.

– Será que é mais um pedinte.

Descrente desci as escadas e quando olhei lá para frente meu coração bateu mais forte.

– Nossa! Ela veio.

– Que legal, pensei que não iria aceitar o convite.

Já lá dentro:

– Não acredito que está aqui. Será que vai demorar.

Um mês e alguns dias depois, na casa da frente:

– Por que chora por aquele besta? Mas que cara imbecil, será que não percebe que garota legal está magoando.

Um ano depois:

– Nós precisamos conversar. Tenho que dizer tudo o que sinto – decidi.

Depois de um 'jantar' no pit dog do Chico, na famosa pracinha da rua 68:

– Que massa! Quando eu disse pra ela tudo o que eu queria, já pela segunda vez, ela demonstrou outra cara.

Há seis meses:

– Será? Ela estava toda aberta, mas não respondia aos meus olhares....

Há dois meses e meio depois de um beijo:

– Um ano vai passar logo. Afinal a gente se ama e vai ficar junto pra sempre.

Há alguns segundos, depois de ler em uma mensagem no encarte de um pequeno CD com as nossas canções, recém ganhado. "Se eu soubesse fazer música, faria uma tão bonita quanto essa para você":

– Eu realmente a amo pra valer.

Uma lágrima que escorrer pelo cantinho do olho.


EU TE AMO DEMAIS. FELIZ 4 MESES!!!

Que eles se tornem 4 anos, 4 décadas, 4 séculos...

quinta-feira, 29 de junho de 2006

O Desapego é o Ganho

Esta é uma das histórias mais bonitas que conheci . Toda vez que penso em desistir de algo, me lembro dela. Há três meses tive o prazer de conhecê-la um pouco melhor. A narrativa é um pouco grande para Internet, por isso decidi publicá-la em três ou quatro frações. Acompanhe, se se interessar. Não deixe de conferir os posts de baixo. Eles são a continuação (as partes seguintes vieram abaixo das primeiras). Boa leitura.

O Desapego é o Ganho
Uma história de superação

Em meio às casas simples do Bairro Rio Vermelho da cidade de Goiás, em um pequeno sobrado de tijolos aparentes, vive a irmã Arcelina Helena Públio Dias. Há pouco mais de oito anos, quando ela chegou ali, não havia muita infra-estrutura no novo bairro periférico da pequena cidade. Andar por lá exige esforço das pernas: as pequenas subidas e descidas parecem inofensivas, mas é preciso resistência para enfrentar os acidentes geográficos encontrados no caminho. Hoje, pelo menos, é possível caminhar por algumas das ruas pisando na firmeza do asfalto que cobriu a terra seca e poeirenta, típica do cerrado.

Chegar à casinha na primeira vez é complicado para quem não conhece bem a cidade. Os tijolos aparentes estão longe da tradicional Casa de Cora Coralina, as praças do Coreto e do Chafariz, Museu da Boa Morte e a Igreja de Santa. Na entrada há uma pequena cerca de arame que separa a calçada de concreto, ainda limpo da sujeira do tempo, de um pequeno e rasteiro jardim. O portão, que na verdade é uma porteira de madeira rústica, é sustentado por dois mastros, um de cada lado. De um deles se ergue uma pequena placa que anuncia: "Casinha do Menino Jesus".

A bata longa verde musgo, de barras brancas bordadas em linha de crochê, os curtos cabelos lisos e castanhos, presos por uma tiara, e os chinelos de dedo indicam que a irmã está bem a vontade depois de uma tarde de caminhada pela cidade. Ela tem 62 anos, mas aparenta 40. O corpo bem conservado e esbelto deve ser fruto das caminhadas diárias. A pele morena é jovial. Na verdade, o sorriso sereno que sempre traz lhe garante a vitalidade. Na varanda de chão de cimento liso, um frescor sobe pelo ar no meio da tarde agradável de abril. Um cheirinho de limpeza emana de dentro da casa, bem organizada. Dali a pouco, a diarista que faz a limpeza semanal se despediria, feitas algumas recomendações pela dona da casa.

Um banco de madeira com capacidade para quatro ou cinco pessoas compartilharem a brisa servia de apoio para os pés de Arcelina antes dela abrir o portão. Estava sentada em uma cadeira de fios coloridos, dessas encontradas na frente das típicas casas goianas, onde se gosta de uma boa conversa nos fins de tarde ou de montar guarda a fim de ficar a par de tudo que acontece na rua.

– Mas vamos ter de fazer foto?
– Se a senhora permitir, seria melhor...
– Com essa roupa não ficaria bom. Estou muito a vontade.
– Geralmente a gente tenta caracterizar a pessoa dentro daquilo sobre o que estamos falando. Por exemplo, a senhora poderia estar usando um hábito ou vestimenta que tenha a ver com o Mosteiro Beneditino.


Mais ou menos trezentos metros distante dali, indo pelos sinuosos caminhos do bairro de lotes baldios cobertos por um mato alto, depois de um córrego que cheira a esgoto ("Quando cheguei ele era limpinho e bonito e hoje está assim"), estava o Mosteiro da Anunciação da cidade de Goiás. Lá Arcelina havia passado seus primeiros anos na cidade. A ordem beneditina resolveu construir o centro naquele local na década de 1980. Na época, a cidade não havia chegado até ali, condição que determinou a construção do mosteiro. A caminhada é essencial para que o monge entre em contato com a comunidade que o abriga. Seu meio de transporte tem como motor a força do corpo.

– Eu tinha uma bicicleta que me levava para todos os lados. Até que um dia, em uma dessas subidas, perdi o controle e caí. Sabe como é. A idade vai chegando e não posso ficar extrapolando os limites do corpo. Dei a bicicleta para a vizinha ali.

O dedo aponta para uma humilde casa, que mais cedo tinha à porta duas meninas pequenas, brincando, com cabelos despenteados e vestidas somente com calcinhas coloridas.

quarta-feira, 28 de junho de 2006

O Desapego é o Ganho - Segunda Parte

– Como posso denominar a senhora? Monja?
– Não, não sou monja. Sou oblata. Como sei que vai ter explicar isso para o leitor, você pode dizer que é a mulher religiosa que, pelo fato do mosteiro ser somente masculino, é consagrada para tomar parte na ordem.

Ela sabe porque já esteve do outro lado. Com freqüência, retoma a posição.

1975, França.

Com alguns anos de graduada e com experiência em redação, a jornalista Arcelina, nascida e estudada na capital paulista, vai à França fazer seu mestrado. Ela consegue aliar o estudo com a prática da profissão que escolheu, sendo correspondente do Jornal do Brasil na Europa. A atividade, um ano mais tarde, lhe renderia convite para trabalhar na novíssima Universidade de Brasília. Na capital federal, começa a cobertura local pelo jornal o Estado de São Paulo. Ditadura. Ela e os colegas de redação conhecem bem de perto a mão castradora da censura militar. Quem a conheceu na vida agitada dessa época, talvez se surpreendesse ao vê-la, trinta anos mais tarde, como uma oblata beneditina, desprovida de qualquer necessidade de casarões, carros, roupas caras e dinheiro abundante.

1996, Brasília.

A morada é uma rica casa do Lago Norte. Separada, depois de passar onze anos casada com o pai de seu único filho, Pedro, e um ano após escrever o livro "Crônica do Salário Mínimo", onde conta a experiência de viver com mínimo, Arcelina passa pela pior provação de sua vida.
A imprensa, reunida no cemitério, causa uma movimentação incomum à intimidade pertinente nessas ocasiões. O acontecido chocou a atenção pública na cidade nas últimas horas. A correria ainda não havia permitido muita reflexão até aquele momento. A imagem forte e presença de muita gente povoa suas preocupações. A certidão de óbito não esclarece muito. Diz somente a causa da morte: afogamento.

– Ninguém duvide do amor de Deus por Pedro e por todos – diz emocionada aos presentes.

Arrepio.

2000, Brasília.

O jornal Correio Braziliense para o qual prestou colaborações, traz Arcelina de volta às manchetes. No Lago Norte, a rica casa está vazia. Um óleo sobre seda de Hélio Oiticica de 6 mil dólares, um óleo sobre tela de Antônio Poteiro de 1.800 reais, um óleo sobre tecido de Cláudio Tozzi, 6 mil reais, quase todo o mobiliário, algumas recordações de viagens feitas a mais de 50 países, bens de uma vida toda, serão vendidos dali a dias em um bazar na SHIN QL 02, conjunto 10.

O repórter João Luiz Marcondes justifica em sua matéria: "Desde agosto do ano passado, ela mora no Mosteiro da Anunciação, na cidade de Goiás, numa vida de retiro, preces, meditações e silêncio. No próximo Domingo de Páscoa, ela parte para uma fase do projeto de vida que escolheu para si: peregrinar pelos continentes se inserindo entre populações pobres de diferentes regiões. (...) Toda renda será usada na viagem, certo? Não. A jornalista, que agora se dedica a escrever livros sobre suas peregrinações, resolveu doar todo o dinheiro que conseguir. A renda vai para a Comunidade Terapêutica Senhor Jesus, uma instituição filantrópica que cuida da reabilitação de dependentes químicos vindos de famílias carentes. ‘Pretendo salvar algumas vidas’, diz ela, que, infelizmente, acabou vendo o filho único morrer por conta da dependência de drogas químicas, há dois anos e meio. Pedro, que tinha 20 anos, morreu afogado no Lago Paranoá".

terça-feira, 27 de junho de 2006

O Desapego é o Ganho - Terceira Parte

11 de março de 2006, Goiânia / cidade de Goiás.

Já são mais de nove da noite e lá iam alguns minutos de uma ligação interurbana.

– A senhora desculpe a hora, mas é que precisava falar ainda hoje.
– Não tem problema. Acabei de chegar do Mosteiro. Estamos com uma programação especial para a Semana Santa.
– Bem, melhor assim... É que pretendemos contar algumas histórias de superação neste Domingo de Páscoa no jornal O Popular e lembramos da sua. Queria saber se a senhora se importaria de conversar comigo amanhã.

Silêncio por alguns instantes.

–É um assunto que ainda mexe comigo. Tenho que pensar. Não sei se quero recordar... Mas de qualquer forma vocês virão para a cidade?
– Sim. Vamos cobrir a Procissão do Fogaréu.
– Vão almoçar onde?
– Não sabemos, em um restaurante da cidade provavelmente.
– Então almoço com vocês. Aí te dou uma posição.

12 de abril, cidade de Goiás.

Hora do almoço. O cenário é um restaurante em estilo colonial do centro histórico de Goiás. Momentos antes, os caminhos percorridos pelo bairro Rio Vermelho pareciam mais tortuosos com o atraso de quase uma hora na viagem. Perder-se foi inevitável. O problema foi contornado por um breve telefonema. Vestida com uma camiseta amarela, calça jeans e tênis, Arcelina coloca no prato um pouco de arroz, feijão, alguns legumes e um vistosa salada de alface verde e tomate. A bebida é suco de laranja, porque não bebe a Coca-Cola que financia a guerra de Bush.

– Conversei com o frei Marcelo Barros. Ele me disse: ‘você não os procurou. Foram eles que vieram a você’.
– Garanto que não haverá sensacionalismo ou coisa do tipo.
– Sei. Eu ainda acredito muito no jornalismo.
– Isso é bom.
– Ele me disse ‘aceite o que vem’. E estou fazendo muito isso: aceitando o que vem.

4 da tarde. O carro estaciona rente à calcada com cara de nova e a porteira de madeira rústica é aberta. Enquanto a conversa flui, depois de trocar a bata verde musgo por uma camisa branca e uma longa saia escura, Arcelina deixa conhecer a casa. São cerca de sete metros por sete metros. A pequena cozinha é conjugada com a sala. À porta, duas grandes partes de madeira se juntam para cerrar a casa quando preciso. Nesta ocasião, o Sol e a Lua, desenhados um em cada parte da porta dupla, se juntam em uma espécie de comunhão. Lacrando a entrada, eles ficam sob os dizeres que também são encontrados em todo mosteiro: "Bem vindo, sua visita é a visita do Cristo". Um pequeno sofá de três lugares é adornado por simples almofadas coloridas. Ao seu lado, o único móvel que ela quis pegar de herança da mãe falecida, quando tudo foi repartido entre os irmãos: um belo armário escuro que guarda, entre outros pertences, livros. Outras publicações se apinham em pequenas prateleiras suspensas na parte baixa das paredes.

Ao fundo, um quarto que recebe irmãos da Igreja em visita à cidade e que não podem ficar no mosteiro. Ao lado da porta desse quarto, uma escada em espiral leva à parte de cima casa, onde está o quarto de Arcelina. Atrás da escada, uma enorme bandeira do Movimento dos Sem Terra se estende adornando a parede. No pequeno aparelho de tocador de CD soa uma versão instrumental de O Cravo Brigou com a Rosa e algumas outras cantigas de roda. Fazem parte do projeto Cantilena Artesanal, grupo de jovens e adolescentes da cidade que produzem os instrumentos com material reciclado, e ao qual ela ajuda.

As fotos devem ser feitas logo, porque o Sol já está para se pôr. O cenário ideal é a pequena capela que foi construída em anexo à casa, no quintal, há pouco mais de um ano. Uma caixa em que está o Santíssimo, onde hóstias consagradas ficam alojadas à espera da comunhão, é acompanhada por banquetas para se ajoelhar, a imagem dependurada de Nossa Senhora de Guadalupe, a imagem de Cristo ressuscitado esculpida na madeira por presidiários da Casa de Prisão Provisória de Goiás e tapetes coloridos tecidos por mulheres de um assentamento de sem-terra. Tudo arrumado por ela. No caminho até lá, Arcelina mostra orgulhosa as pequenas árvores frutíferas plantadas por ela mesma no quintal: pés de mandioca, milho, jabuticaba, tamarindo, abacate, seriguela e banana.

A tarde cai e Arcelina se apressa para mostrar o Jardim da Anunciação. Ele tem compromisso no mosteiro naquela noite. A três quadras dos tijolos aparentes, a propriedade comprada com parte do dinheiro arrecadado em Brasília é um verdadeiro viveiro de plantas nativas do cerrado. O terreno acidentado dificilmente permitirá a construção de paredes sem um milagre de engenharia. Mas ela ainda não quer levantar muros ali. O lugar contém um singelo e simpático parque infantil com balanço e gangorra para crianças e uma mandala desenhada no chão para conversas em torno da árvore que está ao centro. Ele é usado para reuniões religiosas e dos trabalhos que ela conduz na comunidade. Preocupada em parecer vaidosa com eles, quase não os enumera. Dentre os que vem à tona, um projeto de assistência a mulheres, um de incentivo à leitura para crianças pobres e uma parceria de atendimento psicológico.

– Aprendi que vida espiritual não é aquisição. É desapego.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

O Desapego é o Ganho - Parte Final

16 de abril de 2006, Domingo de Páscoa, Goiânia.

O segundo caderno do maior jornal de Goiás traz seis histórias reais de pessoas que conseguiram superar as mais difíceis situações e deram outro sentido às suas vidas. A página oito é aberta com uma enorme e bela foto de irmã Arcelina na capela de sua casa. A matéria de exatas 40 linhas destaca que, depois de dois livros-reportagem escritos (um sobre a África e outro sobre as Américas), em outubro ela parte para Europa, berço dos primeiros mosteiros do mundo. Lá, talvez consiga inspiração para pôr em prática seu objetivo maior. Sua próxima grande missão – construir um mosteiro feminino em Goiás – é resumida em uma frase de Santa Teresa D’ávila. Ela pode ser lida no quadro que fica no altar da sala, ao lado da imagem de São Bento e da foto de Pedro: "Por um mosteiro que seja singelo e não faça barulho ao ruir no dia do juízo final".